Colheita de maçãs

Parque Lage, jan 2019. Foto por SebastLópezSánchez

Nos preocupamos tanto com demandas futuras e isso nesse momento parece-me normal já que ocupamos ao mesmo tempo vários papéis, afinal somos filhos, irmãos, netos, pais, amigos, colaboradores, empreendedores… Sim, é normal, mas sim, também é um exagero. Vou explicar, o fato de olharmos tanto para nossas questões e obrigações com o outro, de onde eu vejo, parece-me mais com fuga do que com preocupação. Quando tiro a atenção de mim mesma com a desculpa de “cuidar” me desconecto do melhor que tenho a oferecer. Pode soar estranha minha fala e se por acaso ela não te despertou curiosidade, sugiro que a deixe na manga porque logo em breve começará a fazer algum sentido. Se ficou curiosa, vou desenhar e aquarelar para você, mas para isso preciso que use a imaginação, vamos!

Imagine que você tem uma macieira e vem cuidando dela por meses, hoje você além da árvore tem um cesto repleto de maçãs, vermelhas, suculentas e frescas, são tão lindas que você se apega, desejando que sejam todas tuas. Racionalmente você percebe que não dará conta de comê-las antes que comecem a estragar, planeja fazer geleias e bolos, mas você sabe que mesmo usando essas estratégias não será possível evitar que apodreçam bem na sua frente. Dividir não faz sentido pois pensa em todo trabalho e investimento que fez para conseguir essa colheita. Por mais que isso lhe doa, você não abre mão, muito pelo contrário você a segura ainda mais firme antecipando o seu fim. Obviamente parte das maçãs estragam, e você fica triste.

Um outro cenário seria este, o cesto de maçãs está transbordando, por isso sem pensar muito sai a procura de quem quer que seja para doar sua colheita, mas você sente fome. Ignora sua própria necessidade, finge não ver, mas ela está lá, a fome. Enquanto você compartilha os frutos percebe que seu corpo está fraco e precisando de alimento, mas os frutos são tão lindos e você precisa tanto se conectar com os outros que mais uma vez ignora o sinal. Doa todas as maças e passa um dia feliz, afinal você fez pessoas sorrirem e viu alguns olhinhos de criança brilhando. Fez o que o mundo diz ser o certo, dividiu, compartilhou, e por isso se sente pertencente. Mas quando a noite chega o vazio é seu convidado de honra. Você tem fome, e o cesto está vazio.

O próximo cenário é mais desafiador, talvez nesse momento você ainda não tenha estrutura para dar conta de executá-lo, mas ainda assim vou compartilhar porque tenho certeza de que lhe será útil algum dia. Vamos lá, a colheita de maçãs foi ótima, você dedicou tempo e recursos para fazer aquela macieira prosperar, e sim você conseguiu. Reflete sobre suas atitudes e como elas te levaram a colher frutos tão especiais. As maçãs além de saudáveis são saborosas, mas são muitas. Você experimenta uma e por ser tão suculenta deseja compartilhar com quem você gosta. Antes planeja fazer uma torta e alguns vidros de geleia, você se nutre, e percebe que tem demais. Toda dedicação, além de prover um alimento fresco para você mesmo, poderá nutrir outras pessoas, você percebe o seu valor e se agradece. Escolhe as que você precisará, e conscientemente decide doar as demais.

Nos três cenários a situação inicial é a mesma, uma colheita farta de maçãs. O que muda o desfecho das histórias é a motivação. No primeiro, o apego antecipa a perda da maçã, no segundo a necessidade de conexão e pertencimento convida o vazio para dormir na mesma cama. Já na terceira, um ser consciente e conectado consigo mesmo, se nutre e alimenta os outros, ao mesmo tempo.

Chegar a um nível de consciência plena das próprias necessidades e desejos é uma tarefa diária, é artigo que não está à venda para que você possa acumular no armário. É o desafio de se olhar e se perceber, e no primeiro momento dói, porque a heroína que dizemos ser se mostra frágil e repleta de sombras. Queremos parecer sempre boas moças, mas é uma grande mentira, queremos mesmo é esconder nossas dificuldades dos outros, escolhemos um lugar tão perfeito que acabamos escondendo-as de nós mesmas.

Olhar para dentro não é um ato de egoísmo como dizem por aí, é um ato de bravura. Reconhecer-se vulnerável não significa ser fraca ou incapaz, mas é perceber as próprias falhas e necessidades, acolher-se e nutrir-se. Ninguém pode dar aquilo que não tem, é uma frase bem conhecida, mas pouco entendida. Quando estou inteira e atenta ao que preciso, consigo ter clareza de como e com o que posso contribuir de maneira eficiente. Não saio por aí distribuindo o que tenho no momento, quando estou inteira compartilho o melhor de mim.

É provável que nesse momento você esteja se perguntando: “mas como?”. Se eu te disser o caminho não será o seu caminho, essa travessia é individual e única. O que posso fazer nesse momento é compartilhar com você o que me mantém no presente, uma xícara de chá por exemplo, pés na grama úmida, o amor que transborda, gargalhada de criança no quintal, vento frio no alto de uma montanha, a magia da lua, vanilla sky

O que te faz inteira?

Com Carinho,

Dona Maria Flor

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