Vamos conversar sobre Hello, da Adele.

IMG_20160714_085449Confesso que nunca simpatizei com a música, sempre julguei como uma fraqueza e um arrependimento desnecessário já que como um evento passado deve permanecer no passado. Uma conversa onde o outro lado parece não querer se expressar, não fazia sentido pra mim. E um pedido de desculpas assim instintivo seria em vão, quem iria ouvir? Pra que se expor a tal feito tanto tempo depois? Sempre me pareceu como uma declaração imatura e desmedida. Ok, as coisas mudam.

Sol, céu azul, caminhada e Spotify com uma playlist delicinha pra acompanhar, ‘chá com a rainha’ foi a escolhida, entre Amy Winehouse, Eric Clapton, Oasis…  Adele. Gosto dela, mas a música em questão sempre me causou desconforto. Já nos primeiros acordes antes mesmo dela começar a soltar a voz, movida pelo instinto peguei o celular com a intenção de trocar de faixa. Silencio. Reflito. Decido ouvir, na mesma intenção quando trocamos de calçada ou a cor do batom quando o dia parece monótono demais. Arrisquei. Foram 45 minutos ininterruptos ouvindo sobre aquela experiência. Não porque decidi assim, mas simplesmente só me dei conta que estava ouvindo a mesma música quando cheguei de volta no carro.

Me despi de qualquer preconceito em relação a canção. Ouvi atentamente frase por frase, e como mágica, algumas situações foram surgindo na minha cabeça e se construindo e desconstruindo entre os acordes. Quanta coisa mudou. Percebi quão libertadora fora a experiência. E visitei sem óculos escuros o quarto dos corações partidos que colecionei, e ainda coleciono. Saí do lugar de vítima e assumi a postura de vilã. Porque sim, você já foi vilã, eu já fui, você está sendo ou será, não duvide disso. Eu até pouco, bem pouco tempo atrás, desconhecia esse quartinho dentro de mim, aquele o dos corações partidos. E confesso que foi assustador ouvir frases que eu tanto já tinha dito. Que sensação estranha, pensava. Era pra eu estar te dizendo isso. Mas naquele dia estava ouvindo. Foi uma situação inicialmente paralisante, frustrante, quase devastadora. Me recompus, nunca como antes. Mas mais madura, e preenchida por uma empatia resoluta. A música me fez lembrar as poucas palavras que consegui dizer naquele dia, desculpa foi uma delas. Não tem muito que se dizer uma situação dessas, desculpa soa até bem clichê já que de nada adianta, na prática. Mas meu pedido foi sincero, tão sincero quanto minha estranheza e desconforto, quanto meu espanto por me perceber vilã na minha própria história.

É libertador perceber que anos se passaram e com eles, o tanto que cresci. Não o suficiente. Mas cresci. Se você ainda não consegue entrar no quarto dos corações partidos, eu te entendo, não entraria por vontade própria, não eu.  Até porque fui colocada lá, e apesar de desconfortável, frio e escuro, foi surpreendente me reconhecer vilã. Ainda que sem intenção de machucar, ainda que sem maldade, ainda que numa atitude inicialmente inofensiva, fui vilã. Isso era um fato, não dava pra mudar essa verdade, se antes eu não sabia, agora sei. E que mudou?

A música acendeu a luz do quarto, e tive clareza. E como que numa conversa a dois, pude deixar ir, deixar ir daquele cenário que antes me sentia vítima. Você percebe que pode machucar tanto quanto foi machucada. Percebe que nem tudo que você transmite aos outros tem perfume e brilha. Quando a gente se percebe gente como aqueles que a nosso ver destroem e machucam, fica mais fácil entender que o nosso julgamento só é capaz de condenar a nos mesmos. Talvez mergulhar tão profundo dentro de si mesmo seja difícil e incomum, muitos preferem aquilo que é raso e superficial. Também entendo. É dolorido mesmo esse processo de autoconhecimento, mas pra mim é fundamental, porque nem de longe você é quem pensa que é, nem aquilo que você deixa para o mundo, nem o que os outros pensam de você. Somos tão maiores que nem mesmo podemos imaginar. Talvez um dia em algum lugar alguém nos diga e mostre todo nosso tamanho e o que realmente somos. Mas aqui e agora, se como eu você pensa em evoluir, em aprender mais sobre o mundo, a desenvolver empatia, segue meu humilde conselho  ‘abra o coração, e ouça Hello’.

Anúncios